Começou às 05:40 esta jornada, que agora, cerca de 72 horas decorridas, sinto que me tornou mais completo.
Esta m/viagem preencheu de certo modo alguma da enorme angústia que fica quando se perde alguém e se sabe que não se fez o suficiente, em tempo útil, para demonstrar o que realmente sentimos cá dentro.
Quando damos por essa falha geralmente já é tarde demais e depois fica aquela dor e a angústia de não podermos fazer nada para emendar, mesmo que pouco, essa falha.
Sempre comuniquei pouco. É capaz de ser defeito ou feitio. É capaz de ser de infância. Sempre fui bastante fechado comigo e com os sentimentos, que raramente deixo sair fora da armadura que crio à minha volta. Na passada sexta-feira abri a ‘armadura’ q.b..
Tudo ficou preparado de véspera. Roupa pronta e dispositivos com as respectivas baterias carregadas. Telemóvel, 'Silver' Garmin, MP3, Máquina de Fotos e NDrive. No dia, teria apenas de fazer as sandes e descascar fruta para o abastecimento reforçado que planeara para meio caminho.
Levantei-me às 04:00. Seguiram-se as rotinas dos dias especiais. Por volta das 05:00 um prato de nestum. Seguiu-se-lhe a equipagem, com especial atenção aos pontos mais sensíveis ao atrito, mamilos, virilhas e dedos dos pés, profusamente envolvidos em vaselina. Às 05:30 estava a sair de casa e às 05:40 a jornada teve início.
A temperatura era baixa. Estávamos afinal no dia mais frio do ano.
Iniciei em regime de marcha forçada e fiz os primeiros 2 Kms neste modo. Ao longo das cerca de 15 horas da m/jornada evitei ao máximo pensar em tempos e em médias. A viagem era para ser feita, fosse em 12 ou em 24 horas. Era essa a única preocupação: Fazê-la!
Alguém me relembrara, dias antes: “ as subidas são para ser feitas a andar” (Luís ‘Tigre’ Miguel). Este recado acompanhou-me durante todo o dia. Cada vez que via uma subida, passava a regime de passo forçado. Aproveitava para hidratar, responder aos SMS do Jorge Branco e de vez em quando a mastigar qualquer coisa. Cada vez que passava uma localidade, aproveitava igualmente para registar, para mais tarde recordar!
E ainda há placas pintadas em azulejo!!
Esta parte inicial era uma das partes que eu mais temia. Era sair para a rua a horas impensáveis para ir correr. Estava escuro e frio. E eu estava ali, no meio da estrada, (quase) sózinho. Havia alguém que me acompanhava.
Acabou por não custar assim tanto. Apenas comecei a correr por volta do 2º Km. O trânsito era escasso e os Kms passavam-se calmamente.
As primeiras 2 horas foram feitas a 8Kms/Hora. Estava a portar-me bem. O sol começava a levantar-se e a mostrar um dia que seria muito bonito.
Por volta das 02:30 hrs de percurso parei para tomar o 2º pequeno-almoço. Soube-me muito bem. Meia de leite, 1 queque e 1 café.
Segui caminho, para logo à frente complementar com uma sandes mista caseira.
No farnel, nesta 1ª metade do percurso, ia: 1 Barra / 1 Gel energéticos, 2 Bananas, 1 Sandes Mista, 1 Pacote Polpa 100% Fruta (do Alex… ), 1 dose de amendoins salgados / de cajú salgado / de sultanas, 1/2 pacote de chipmix, 1 lt de água, 2 porções do bolo energético.
A 1ª parte, até aos 16 Kms era a mais exigente em termos de subidas. Depois começou o carrossel de subidas e descidas e o passo, mesmo que involuntariamente, aumentou um pouco, para a casa dos 9 kms / hora. O trajecto tem muita subida e descida mas é na sua grande maioria tudo ligeiro.
Mesmo depois do sol nascer o frio fazia-se sentir.
O meu equipamento para a viagem foi: 1 gorro de malha, 1 luvas de malha, 1 T-Shirt, 2 Polares, 1 Corta-Vento, 1 Colete Reflector, 1 Bidon com cinto à Tiracolo, 1 Bolsa Tiracolo, 1 Mochila, 1 Led na Mochila, 1 fita reflectora na Mochila, 1 Calções, 1 Meias e os GT-2150.
Optei por levar calções unicamente por razões práticas. Comecei-me a imaginar a ter vontade de encostar, para ir ao WC, alguma dúzia de vezes com aquela água toda que iria beber e a ter de tirar aquela panóplia de artigos para conseguir tirar as calças. Com os calções, como bem me entenderão, as coisas ficam mais acessíveis (…).
Claro que há o reverso da questão, e esse residiu no facto de ter ido para a rua, com aquele frio, de calções. De vez em quando olhava para as pernas e via-as encarnadas (...). Claro que a pessoa abstrai-se e continua, sem ligar. Só muito mais tarde, quando já em casa me meti debaixo do chuveiro, é que me apercebi dum ardor em reacção à água quente a cair, principalmente na coxa esquerda. Tinha as coxas queimadas, do frio que apanharam na viagem!! A esquerda estava em pior estado porque o lado esqº foi o que andou sempre mais perto da berma e exposto ao frio que vinha, principalmente do lado esquerdo.
Consegui passar as piores partes do percurso, em questão de trânsito, antes da hora de ponta e por isso o percurso para lá, correu de modo pacífico. Em cada subida petiscava e hidratava. O físico não reflectia qualquer tipo de cansaço. Sentia-me muito bem.
Outra questão que me levantou algumas dúvidas foi a falta de conhecimento do trajecto. Em 2 fins-de-semana anteriores fizera o reconhecimento até cerca dos 30 Kms, mas os últimos 20 Kms eram completamente desconhecidos. Olhar para um mapa no GoogleMaps, GPSIES ou Garmin é diferente do que estar no local, ver subidas, descidas, cruzamentos, curvas sem bermas, etc, etc. Mas também aqui esses temores se revelaram infundados, pois nunca andei realmente perdido e se alguma vez me desviei do percurso traçado, foi engano desprezível em termos de distância.
A cerca de 10 Kms no final da 1ª parte comecei a sentir um dedo do meu pé esquerdo. Aqui outro facto digno de ser registado, para futuras situações. A 3 dias da minha demanda, encontrei na SportZone umas meias de compressão. Era um artigo que há algum tempo ambicionava experimentar e não resisti, logo nesse dia, terça-feira passada portanto, as experimentei, no último treino antes da viagem de sexta. Comecei a pensar levá-las na viagem. Apesar de tudo o que já aprendi e que os outros me ensinaram, acerca do equipamento a levar ou especialmente a não levar, acerca dos repetidos conselhos para não se estrear nada em dias de eventos especiais, meteu-se aquela na cabeça e pronto. Ainda as lavei, na tentativa de lhes dar algum uso, pelo simples facto de as lavar num programa leve. Claro que esta m/experiência tinha de dar mau resultado.
A 10 Kms de atingir a 1ª metade da viagem começo assim a sentir o dedo, que foi assim até ao final. Valeu o ‘banho’ de vaselina à partida, às 05:00 quando me calcei e que repeti agora, a meio caminho, porque felizmente levei comigo um tubo de vaselina. Descalcei-me, comprovei a existência duma bolha, coloquei mais uma extra dose de vaselina e voltei a calçar-me. A bolha, de facto, só voltou a dar sinal já perto do final, a cerca de 30’ de casa. Do mal o menos e podia ter corrido bem pior.
Estávamos perto das 12:00 hrs, perto dos 50 Kms e perto do meu destino.
Pelo caminho mais de 6 horas para pensar. Muito bom. Muito bom!!
Cheguei ao destino eram 12:16 hrs e tinha cerca de 51 Kms feitos. Enquanto subia a última rua, antes de chegar ao meu destino, sentia-me feliz. O meu sonho de há uns meses estava prestes a ser concretizado.
Continua ...
