terça-feira, 30 de julho de 2013

Sesimbra Ultra-Trail 2013

Abril


Impõe-se aqui uma nota prévia a este artigo, uma vez que, apesar de respeitar a um evento que realizei em Abril, por várias razões não o publiquei na devida altura.

Pretendo agora com a sua publicação colocá-lo no lugar próprio.

...
...


Estreei-me nesta prova em 2012, com resultados muito satisfatórios. Este ano foi o desastre e a 2ª desistência da minha carreira de atleta.

O dia começou bem, a viagem pacífica, ao contrário do ano passado não se adivinhava chuva, antes pelo contrário, o dia previa-se quente.

Levantar o dorsal, cumprimentar as caras conhecidas e pouco antes das 7hrs lá estava eu, bem lá atrás, aguardando pacientemente pela partida.



Mas esta paciência foi-se assim que ouvi o tiro de partida!

Lancei-me por ali acima, sem cautela, à confiança.



A história da minha participação nesta prova, fica assim resumida a mais uma lição de humildade e de consciência das minhas capacidades em determinada altura e dos meus limites. É o como não se deve fazer uma prova quando não há pernas para tal!!

Treinei pouco este ano. Já em Fevereiro, na minha viagem a Runa, senti que a condição física nada tinha de comparável com a do ano anterior. Mas em Runa, houve uma diferença, que foi a atitude com que encarei não uma prova, mas sim um evento muito especial. Em Fevereiro não liguei ao relógio, no passado 14 de Abril só liguei ao cronómetro.

O resultado foi que a partir dos 20Kms o 'fuel' acabou. As pernas simplesmente recusavam-se a andar. A subir fazia um esforço enorme e em plano nem correr eu conseguia. Já no Cabo Espichel sentia grandes dificuldades de progressão, mas quis dar algum tempo e arrastei-me até aos 30Kms.

Desisti.

Correr ... Por quem não esqueci - 2ª Edição

Fevereiro


Impõe-se aqui uma nota prévia a este artigo, uma vez que, apesar de respeitar a um evento que realizei em Fevereiro, por várias razões não o publiquei na devida altura.

Dada a natureza do mesmo e também o respeito que devo aos intervenientes e envolvidos na 'Minha Jornada', tinha que vir aqui terminar o que passados alguns dias do 3/FEV escrevi e publicá-lo, tentando assim colocar no lugar próprio este evento que sublinho, é o mais importante da m/época.

.....
.....


E chegou mais um 03/02 e mais uma visita à minha Mãe, em Runa, a cerca de 50Kms de casa.

O meu dia de viagem começou às 04:00, com um bip do despertador do tlm. A noite de sono foi curta. Apesar de só ter conseguido deitar-me já depois das 00:00, acordei 2 vezes, não sei bem porquê, ou até sei ...

A laranja + higiene + peq almoço (hoje mesmo pequeno ...) + equipar, foram as etapas que antecederam a saída.

Esteve mais uma vez uma manhã muito fria, com vento a soprar maioritariamente contra, por isso, quando comecei a minha viagem às 05:15, fi-lo em passo apertado. Estava muito frio, tinha mais de 50Kms pela frente e aconselhava-se um aquecimento.

Desta vez o dia calhou a um domingo, em teoria com menos carros do que em 2012.

Fisicamente estava menos preparado que em 2012, mas essa é uma questão menor, perante o objectivo que constitui este evento.

Acertei alguns pormenores do equipamento e do abastecimento com a experiência do ano passado.

A táctica para esta viagem, voltou a ser a que segui na 1ª Edição, com excelentes resultados: sem pressas, subidas a passo e o resto a correr a um ritmo o mais aproximado possível dos 8Kms/Hora.

A 1ª parte liga Queijas a Queluz, atravessando a Estrada Militar. Percurso sensivelmente a subir e muito escuro.

Depois de Queluz, segue-se a ligação a Belas, junto ao Aqueduto e à CREL. Maioritariamente subidas, com muitas curvas e poucas bermas. É sem dúvida a pior parte do trajecto, principalmente à tarde, quando faço o regresso, porque passo aqui em hora de ponta, é um local escuro e sem bermas, não tenho como fugir dos carros que se cruzam comigo. Mas essa parte já lá virá, continuemos na ida.

Sendo um domingo, pouca gente se vê na rua, embora aqui em Belas seja dia de Feira e a azáfama seja já muita.

1ª hora de viagem e 8Kms.

É uma parte essencialmente mental. A hora do dia, o escuro, o frio e o facto de não correr, por ser essencialmente a subir, puxa pela cabeça enquanto o corpo aproveita.

Às 05:53 o 1º sms:
"Aqui Centro de Controle da Toca da Raposa Manca! Estamos no nosso posto! Força Alex!"

Uma vez mais a sorte de poder contar com um aliado de força. Só ele, eu e quem como nós tem gosto pela corrida a pé, sabe a força que representa ter alguém a incentivar o nosso esforço, seja ao vivo, seja por qualquer outra forma. Em esforços com as características deste, em solitário e acima dos 100Kms, esse contacto é ainda mais importante e motivante.
Entre amigos diz-se que não há agradecimentos, eu sei! Mas paciência: Obrigado por tudo Jorge Branco!!

2ª hora de viagem e 16Kms.

Acabei de passar Caneças e vou agora em direcção a Vale de Nogueira. Uma terreola lá mesmo no fundo. É por isso agora tempo de correr. Passa alguma coisa das 07:00 e o sol vem aí!



Escrevi um apontamento: "Para a próxima vez não trazer garrafa de água na mão"

Na dúvida acabo sempre por trazer coisas a mais. Desta vez foi uma garrafa de 50cl de água, a juntar a mais 3x0,5lts que trazia na mochila e no bidon de cintura. Foi demais e aquela garrafa na mão enervou-me.

Ponte de Lousa e Lousa são as etapas seguintes em direcção à Póvoa da Galega e ao desejado reforço de pequeno almoço.



3ª hora de viagem e 24Kms em Ponte de Lousa.

Desta vez a minha trouxa foi composta por: 1 sandes de fiambre e 1 sumo/polpa (roubado ao Alex Jr.) + 4x0,5lts de água + 3 porções de bolo energético (desta vez ainda ficou mais intragável do que na versão de 2012!! Só consegui comer 1 porção ...) + 1 banana + 2 doses de amendoins com sal + 10 bolachas chipmix com sultanas + 1 dose de figos secos + 2 barras energéticas. Na ida não comi estes últimos 3 itens.

4ª hora de viagem e 32Kms na Póvoa da Galega e finalmente um café!

Antes, a alguns metros, foi a sandes + sumo e depois foi um queque e um café escaldado, que souberam divinalmente.

A manhã está cheia de sol, embora fria. Sinto-me bem. Aqui e ali mais uma dose de adrenalina com mais um sms do Jorge.

5ª hora de viagem e 40Kms. Estou nas Malgas. Zona já com algumas descidas, onde o passo sempre anima e também o espírito, porque me aproximo do meu destino.

Por esta altura começo a sentir o calcanhar direito. Há qualquer coisa de errado porque os sapatos escolhidos são de absoluta confiança e já muito rodados. É então que concluo que a culpa é das palmilhas! Troquei as palmilhas com as dos GT2150, que por terem menos uso que estes e serem o mesmo número, me induziram na falsa ideia que daí resultariam benefícios.

Errado! Muito errado!!

Paro e inspecciono o pé. Há uma zona junto ao calcanhar onde já é evidente o conflito do pé com algo que não seria suposto estar ali. Claro que o factor tamanho é importante, mas a forma de um e de outro sapato, que concluo não serem iguais,. também não é menos importante.

Claro que daqui retiro + uma lição, sobre o tema já tão debatido, (mas raras vezes assimilado) acerca das "... estreias e novidades em dias de evento ..."

Recordo a UMA de 2012, em que me passou qualquer coisa pela cabeça, ainda estou a tentar perceber o quê, para escolher fazer aquela prova, com uns sapatos com que nunca tinha feito sessões superiores a 2horas!!

Voltando ao meu calcanhar, tinha de minimizar o atrito e coloquei uma boa dose de vaselina, voltando a calçar-me.

Aproveito aqui para comer 1 banana e lanço-me para a última parte do meio dia da manhã. É a parte mais fácil, esta entre os 40 e os 50Kms. Essencialmente a descer e já com o espírito lá!

Recebo um mms do Jorge "Parabéns Alex. Eu cá estou na toca para te acompanhar no regresso. Abraço"

Sem palavras ...

Tiro novamente a foto, que começa a ser da praxe, à placa de Runa.

 Cheguei mais uma vez!

Desta vez sou o 1º a chegar. Surpreendi todos porque em relação a 2012 venho mais cedo cerca de 30'.

Consigo assim uns momentos mais a sós, que me sabem muito bem.

Desta vez não me esqueci de desligar o 'Silver' para também ele poder descansar um pouco e conseguir aguentar o regresso a casa. No saco que desta vez vem (...) no carro de apoio, vem o carregador, que irá servir para 'alimentar' o meu fiel companheiro de viagem.

Passo alguns instantes a matar saudades. Minutos preciosos estes, que tento aproveitar ao máximo. Quase que desejo que não venha mais ninguém. Naqueles momentos eu quero ser egoísta!

Nem sinto a roupa molhada a arrefecer no corpo. Se bem que o dia esteja bonito e o sol aqueça um pouco.

Chega a Família e depois de mudar de roupa vou almoçar. Uma sandes de presunto acompanhada com batata frita e duas minis. No final remato com 2 tangerinas. O Alex Jr. naturalmente capta as atenções e estamos todos na brincadeira por alguns minutos.

Por mais que eu quisesse, não consigo evitar que esta paragem dure menos de 1hr. Mas também não faz sentido estar com pressas.

Coloco na mochila os abastecimentos para o regresso:
1lt. de água, 1 sandes de presunto, 1 coca-cola, 2 tangerinas, 1 banana, 2 doses de amendoins, 1 dose de bolacha com sultanas, 2 doses de figos secos, 1 barra e 1 gel energéticos. Disto tudo, no final, não comi nada dos últimos 4 itens.

Passa das 13hrs e estou em pulgas para me meter a caminho. O arranque é sempre penoso, seja porque me vou embora donde não queria ir, seja porque estive parado cerca de 1hr e o corpo arrefeceu, ou seja mesmo porque o trajecto de retorno começa logo com subidas. Mas arranco para logo á frente voltar a parar. Com a distracção esqueci-me e vesti corta-vento e o gorro, que neste início de tarde com sol e temperatura bem amena não fazem para já qualquer falta. Aproveito ainda para ligar agora o meu MP3, carregado com cerca de 4GB de música para dar ânimo neste reinício.

Já no ano passado só o havia ligado à tarde. Digamos que a manhã serve mais para a jornada e a tarde já se torna mais físico...

A música  ajuda ao recomeço, mas dos 50 aos 60Kms custa muito! O corpo arrefeceu e não está com vontade nenhuma.

Às 15:30 novo sms do Centro de Controlo: "Força Alex, eles estão à tua espera". Como anexo à mensagem uma foto da participação no Run & Bike da Meia Maratona de Queluz, com a restante equipa Alex Jr. e Dora.

Esta atenção, esta disponibilidade sensibilizam e dão um alento do camano e do catano!!

A partir dos 60Kms o ânimo retorna, o corpo também e o MP3 ajuda. Já o ano passado aconteceu e neste voltei a beber muito mais água no regresso. A temperatura neste início de tarde é agradável e os Kms sucedem-se sem grande esforço. Dá a impressão que venho mais lento este ano em relação a 2012.

Aqui e ali vou captando algumas imagens.



Por volta das 16hrs é a minha Filha a motivar: "Bora campeão, tu consegues!"

Este é também um dia em que os sinto mais comigo, provavelmente porque eles também sentem que retiro durante algumas horas a habitual armadura com que normalmente disfarço os sentimentos.

Perto das 18hrs estou de volta a Vale Nogueira e o dia começa a arrefecer. É altura para voltar a vestir o corta-vento e enfiar de novo o gorro. A temperatura baixa e há que proteger o corpo.


" TÁ FEITO CAMPEÃO " envia-me o Jorge via sms, às 17:54. Não está ainda FEITO como incentiva o Jorge, mas já faltou mais!!

Por volta dos 70Kms e porque o calcanhar tem vindo a queixar-se, descalço-me e vejo que tenho um calcanhar na bolha!! Ou seja, a bolha que fiz, já é quase maior que o calcanhar. Nada há a fazer agora para além de aguentar.

Estou naquela fase em que pouca coisa me faria parar e/ou desistir. A parte de Caneças, ligeiramente a descer, é horrível do ponto de vista de segurança. Chego aqui invariavelmente de noite, a zona é quase exclusivamente curva e contra-curva, sem bermas e com muros altos que retiram qualquer visibilidade. Mesmo a um domingo, o trânsito é menor mas não deixo de andar aqueles Kms em sobressalto.

Mas a jornada está prestes a terminar. Passada a zona de Queluz, segue-se a Estrada Militar que liga Queluz a Queijas. Passo a meta dos 100Kms e registo-a.


Mais alguns Kms e entro em Queijas. Agora é sempre a descer e estou de volta a casa.

Um misto de alegria por ter conseguido, pelo 2º ano consecutivo fazer a jornada que mais significado tem para mim e por outro lado alguma tristeza porque nunca sai como eu desejo, há sempre algo que falta, neste caso esse algo é tempo, é algo que não é possível obter, porque o tempo esse, nunca anda para trás.

Resta-me a alegria de ter contado uma vez mais com o apoio da minha Família e claro, do Jorge Branco, companheiro que pelo 2º ano constituiu uma preciosa ajuda ao longo de toda a minha jornada. Posso até afirmar que não fiz a jornada sózinho, fiz acompanhado e bem, por todos eles.


No final a minha jornada em alguns números:
Distância: 103,05Kms
Tempo: 13:16
Ritmo médio: 7:44min/Kms
Calorias: 8104

Os pormenores.





terça-feira, 28 de maio de 2013

III - Agora sim, sou um Trailer

Com o nascer do dia ultrapassam-se os problemas colocados pela noite e pela humidade. Ver e ouvir tudo o que nos rodeia a acordar é um espectáculo formidável. O nascer do sol é outro espectáculo.




 

Vamos agora perto do casal Mota e a progressão é lenta, feita através dumas rampas, com grande dificuldade.

O PAC5, Porto Espada, ficou no Top dos PAC, por causa daquela bendita bifana!!

PAC5, Porto Espada, 08:22hrs e 49Kms

Nunca uma bifana no pão me soube tão bem como a que eu comi em Porto Espada! Pena que não houvesse mini para acompanhar e pena que o António me empurrasse trilho acima!!
Desgraçado de mim, lá fui resignado, com a bifana numa mão e com a caneca com coca-cola (!!) na outra.

Passados uma dúzia de metros já se avista o imponente castelo no alto do igualmente imponente rochedo que lhe serve de suporte. E o que ainda vamos andar para lá chegar. Quase que dava para ir a Portalegre e voltar, as curvas, sempre a subir é claro, que fizemos para lá chegar.



Um dos privilégios de se andar na cauda do pelotão é termos tempo para olhar, para ver o que nos rodeia. Para gozar aqueles quadros que a natureza nos vai oferecendo, aqui e ali, à medida que vamos subindo ... subindo e claro ... subindo!




Mas depois de muito praguejar e suar, lá transpusemos a tal porta, de conquista do castelo.

PAC6, Marvão, 10:54hrs e 60Kms

Chegando aqui, diminuem as hipóteses de desistência. É essencialmente psicológico chegar a este PAC e pensar: está (quase) feito! Falta o quase!! Faltam 40Kms!!

De imediato lanço-me sobre o 1º de 2 pratos de sopa que comi. Quente, deliciosa, retemperadora. Mais um PAC no meu TOP PAC!!

Passo sem demora aos vestiários, no 1º andar, onde opto pela muda completa. Gasto mais tempo, é certo, mas vou concerteza sentir-me melhor daqui para a frente.
Coloco entretanto o meu 'Silver' à carga e mudo calmamente de roupa.
Neste PAC só senti falta dum café, mas também não podemos ter tudo ...

Dizemos adeus ao castelo e lançamo-nos à calçada romana, 3 Kms inteirinhos dela, bem a descer! Como diria Óbelix: "   estes romanos são loucos..."! Podiam sê-lo mas sabiam fazer estradas!!
Para poupar o esqueleto e digerir a sopa, fazemos aquilo em modo passeio.


A disposição é boa. O sol começa a aquecer-nos. Estou seco e sinto-me bem.



Vamos perto dos Mota, da Célia e do Tomé, que lembro, com alguma graça, ter partido deste PAC com t-Shirt e óculos escuros. Bem havia de se arrepender lá mais para a frente!

Algures por esta fase recordo de ter comentado com o António que o pessoal do tempo se tinha felizmente enganado, uma vez que estava uma autêntica tarde de primavera! Poucos minutos mais à frente engoli esse comentário, com a 1ª das 3 cargas de granizo, com que fui premiado por tão errada premonição!

Mais à frente apanhamos a Célia que vai com campanhia, que desconheço. Observo a leveza com que se desloca. Transparece a experiência naquele conjunto atleta/equipamento. Sómente no simples movimento de beber água, gasto o triplo do tempo que ela gasta ...

Nesta fase um par de subidas bem puxadas traz-me a uma realidade que desconhecia, por inexperiência pura. Os tempos e os andamentos dum trail, com estas características, nada têm a ver com o que eu estou habituado.
Arredondando, traduzo 10Kms = 1hr. Aqui, em Portalegre, aprendi a traduzir 10kms = 2hrs!!

A disposição e o ânimo sofreram aqui um forte abalo. Tal como na minha viagem anual a Runa, é igualmente por volta dos 60/70Kms que atravesso maiores dificuldades.

Aquelas subidas, ainda com pavimento romano, trouxeram o espectro da desistência, perante a falha física que senti entre Marvão e Carreiras. Não sei se devido à moleza provocada pela sopa, se ao facto das temperaturas terem subido significativamente, ou se devido ao acréscimo de energia necessária para transpor aqueles obstáculos, esta foi realmente uma fase difícil.

Estas subidas trazem-me à realidade do andamento possível que faço. 5Kms por Hora é realmente a verdade que estou a apreender.

Vamos os 4 em silêncio e calculo que não esteja a passar dificuldades sózinho. Se fosse nesta fase sózinho não sei o que faria.

Faço contas e embora pareçam pouco os cerca de 25Kms que faltam, isso em tempo corresponde a qualquer coisa a rondar as 5horas!! Mais, claro, os tempos de paragem nos PAC.

Feitas assim as contas um gajo fica mesmo desanimado!

Felizmente chegamos ao PAC7.

PAC7, Carreiras, 13:20hrs e 70Kms

Neste PAC brilhou uma equipa de colaboradores, que a cerca de 100mts do PAC distribuíam minis. Aqueles 200ml souberam muito bem e reconstituíram. Logo à frente o complemento, aqui constituído por biscoitos e coca-cola. Mais uns mimos.

O ânimo está de novo em cima.

Arrancamos em direcção a Castelo de Vide.

É tempo de gestão!

Como o Carlos Fonseca me transmitira no último encontro, num Ultra Treino em Sintra, tudo se resume a "Gestão do Esforço". Nesta fase lembrei-me dessas palavras.

PAC8, Castelo de Vide, 14:39hrs e 77Kms

Perto deste PAC cai nova carga de granizo. É extraordinária a tarefa daquele elemento da organização que sózinho, num entroncamento e a 250mts do PAC, orienta o pessoal em direcção a este. Deverá ter ali estado várias horas, sózinho, ao frio e à chuva! O pessoal dos PAC sempre estavam acompanhados. Este esteve ali sózinho e por isso aqui deixo o meu reconhecimento.

Estou encharcado!

Faço o rapel, à La Rambo de Queijas, seguido do controlo e um chá quente para retemperar.

A esposa do António dá apoio e o Tomé está um pouco desorientado, encharcado,  de t-shirt e óculos de sol!!
Acho alguma graça, ao contrário do que ele terá achado na altura. Não o veremos mais e desconheço se terá ido para a frente ou se pelo contrário, ficou mais para trás.

Neste PAC a chuva cai com alguma intensidade e o pessoal vai-se juntando debaixo do toldo, que obviamente é pequeno para tanta gente. Optamos por arrancar.

Estou todo molhado e vamos em direcção ao PAC9.

É uma boa altura para correr, estradões em bom estado e poucas subidas.

Fazemos contas e se não houver azar chegamos ainda de dia, o que claro, é o que mais queremos.

Estou mais animado e nesta fase, se fosse sózinho, teria corrido mais vezes. Aqui foi de grande utilidade a experiência do António, que me segurou. Claro que muito provavelmente pagaria mais à frente esse gasto suplementar de energia naquela fase.

Mesmo faltando 'apenas' cerca de 15Kms, estaremos a cerca de 3horas de chegar a Portalegre.

Chegamos ao PAC9 que juntamente com os PAC5 e PAC6 constituiu os 3 no TOP dos PAC.

PAC9, Castelo Provença, 16:40hrs e 89Kms

A estrela aqui foi a Pizza. Devo ter comido algumas 5/6 porções. Era como se não houvesse amanhã. Pena estar de chuva porque o local merecia uma paragem um pouco maior.

Finalmente o António arrastou-me dali, para alívio do pessoal do PAC, que via a pizza a diminuir a olhos vistos!

O ânimo está em cima. À medida que lentamente os Kms vão passando, diminuiem as hipóteses de desistência. Vamos agora por montes, vales, cercas e valados, em direcção ao último PAC.

Passamos por elementos da organização que nos dizem "faltam 6 a subir e 4 a descer"!

Logo à frente, outro elemento informa "faltam 14kms (!!!)" e isto cai como gelo na nossa animação!!

Ficamos desanimados e muito chateados.

Devia haver um pouco mais de rigor neste tipo de informação prestada. Para mais estaríamos perto do Km90º de 100 e onde 4Kms significam cerca de 40'!!

Valeu um 3º elemento, que passados pouco metros, noutro cruzamento, desempatou e garantiu-nos "faltam 10Kms!!"



Chegamos ao PAC10 e o sol brilha!

PAC10, Penha, 17:52hrs e 95Kms

Estamos perto das 18hrs de viagem. Dão uma mini e fazemos um brinde: "à próxima que esta está feita!!"

O António muda de camisola e penteia-se!?

Perante a minha cara, esclarece que " é para o Photo Finish "!!  O que vou eu dizer a isto??

Estou eu a deliciar-me com a preciosa mini, quando o António me diz que para fazer o mesmo tempo que em 2012, teríamos de fazer os últimos 4Kms a 6'/Km. Duvido que consiga e ponho-o à vontade para se adiantar. Engulo o precioso néctar e arrancamos, escadas abaixo.

Estamos de volta ao alcatrão e o ritmo sobe. Há muito que o 'Silver' teve um AVC fatal e guio-me pelo andamento do António, que calculo ronde os 05:30/Km.
Entusiasmo-me e adianto-me, viro-me e ele vem mesmo atrás de mim.
Ando o que na altura me pareceu uma eternidade e estou sempre à espera de ver o estádio. Chego a uma passagem, controlada pela organização, onde me dizem "suba esse muro, ande até à ponta e depois salte para o chão!!" Analisando superficialmente mais este obstáculo, sorrio para o meu interlocutor e das instruções que ele mecanicamente me transmite.
O muro tem cerca de 30cms de largura, por 5mts de comprimento e 1,5mts de altura. O equilibrismo ainda consigo, mas o salto, provavelmente, iria soltar-me todas as articulações e tendões que ainda estivessem em condições naquela altura e por isso, transpus pelos meios que consegui arranjar, recorrendo mesmo ao traseiro e aos joelhos.

Depois deste suplício, olho para trás e nada de António!!

Mas onde é que ele se meteu??

Continuo mas a passo mais lento, esperando dar-lhe tempo para me apanhar, o que felizmente acontece. Reagrupamos a cerca de 250mts do estádio e entramos lado a lado.

Faltam menos de 400mts para acabar e por momentos esqueço todas as dificuldade e todos os receios e gozo aqueles últimos momentos duma aventura da qual espero recordar-me durante muito tempo.

Terminamos lado a lado uma aventura que vivemos lado a lado, nas anteriores 18horas.

Corto a meta e está terminado o Ultra-Trail da Serra de São Mamede, edição de 2013.

170º, 18:38:12hrs

Depois do tal Photo Finish, gentilmente obtido pela esposa do António, dirijo-me para dentro.

Sinto aqui alguma pena de não poder contar com qualquer presença no local, mas sei que à distância os meus Filhos seguiram a m/aventura.

Sei também que o meu habitual dispensador de adrenalina, sob a forma de sms, está a acompanhar-me desde a 1ª hora. Obrigado Jorge.

Obrigado a eles, pelo apoio constante e incondicional que me deram.

Obrigado ao António, que conseguiu puxar por mim quando eu precisava e conseguiu conter-me quando precisava.

Estou muito contente, mas só penso em meter-me debaixo do duche. Vou recolher o saco e dirijo-me ao 1º balneário que encontro. Lá dentro um espanhol olha desolado para os pés. Olho e fico desolado também. Os pés daquele menino estavam uma lástima!! A única coisa que tenho é vaselina, que ofereço meio envergonhado. O rapaz agradece mas o que ele precisava mesma, naquela altura, era de uma carrinho, para o levar dali para fora.

Faço um rápido check up e estou impecável. Nada mesmo. Nem uma bolha, nem uma assadura. Bendita da vaselina que faz e fará sempre parte dos meus packs de viagem!!

Tomo banho vestido, para aproveitar o 2 em 1 e dar já uma enxaguadela à roupa. Vou de seguida para o jantar, que não deixa saudades e está concluída a minha viagem a Portalegre, de 2013.

Estou pronto para a próxima.

Venha a próxima!!


... // ...


Passados alguns dias desta aventura, no decurso duma viagem de comboio para o meu serviço, escrevi a seguinte mensagem no meu telemóvel:

"THE DAY AFTER
Nada melhor para o ego do que acordar na manhã seguinte a ter feito 100Kms!
É uma sensação anti-tróika, que nos coloca nos píncaros.
Não fosse sentir as pernas pesadas e iria já para o vale do jamor, fazer 45' calmos.
Venha a próxima"

segunda-feira, 27 de maio de 2013

II - Agora sim, sou um Trailer!

Cheguei a Portalegre e ao local da partida perto das 23:00hrs, já com uma camada de nervos daquelas...

As cerca de 3hrs de viagem permitiram-me um flashback nas minhas memórias e no meu caminho até ali, a Portalegre.

Tudo começou há cerca de 25 anos, com um desafio para cumprir os cerca de 21,097mts, na Nazaré. Pouco tempo depois e com a frescura dos meus vintes, foi o desafio dos míticos 42,195mts, na Maratona Spiridon, em Cascais.

Depois, vários anos mais tarde e já no início dos meus cinquentas, no meu 'nascimento' para o Trail, veio o concretizar do sonho do 'ultra', entendido como desafio superior aos 42,195mts.

Há cerca de 2 anos, devido a motivos da minha vida, vieram os 100,000mts.

No passado dia 18, em Portalegre, cumpri outro sonho, fazer uma prova de trail com 100,000mts.

Consegui!!

Portalegre surgiu como hipótese privilegiada, em 2012, quando no Fórum da Corrida, li rasgados elogios à qualidade da prova e à qualidade da organização.

Era o mínimo que poderia e deveria fazer, assegurar-me que haveria boas hipóteses de correrem bem os factores que não dependessem directamente de mim, ou seja, assegurar-me que no aspecto organizativo não seriam colocados quaisquer obstáculos à minha prestação.

Consegui!!

Depois de um ano passado, depois de alguns treinos, umas 'baldas' e algumas provas, eis que estou chegado ao 17 de Maio de 2013.

As últimas semanas não foram pacíficas.

A desistência no Ultra de Sesimbra não augurava nada de bom. Aliás, aquela prova foi um desastre do ponto de vista desportivo, o oposto do que eu fizera um ano antes.

Porque 2013 não tem sido um ano especialmente produtivo em termos de carga de treinos, muitas dúvidas se colocavam à minha capacidade em aguentar tal empreendimento.

À medida que os dias em falta iam diminuindo, crescia a angústia sobre se deveria ou não embarcar nesta aventura.

Passou-me muitas vezes pela cabeça desistir e adiar a viagem a Portalegre por um ano.

Nas vésperas da tão esperada e ao mesmo tempo temida sexta feira, no último treino que fiz, 3 dias antes, senti-me pesado, sem força e por isso profundamente desanimado.

Mas a natureza humana tem destas coisas, o medo transforma-se, supera-se e pensa-se "logo se vê"!!

Ali, em Portalegre, rapidamente me dirigi ao secretariado para recolher o dorsal (M44), de volta ao carro, ainda deu para beber um café numa roulote. Olhei para o relógio e fiquei mais descansado, faltavam ainda cerca de 60' para a partida.

Mais calmo equipei-me, como tantas vezes o fiz, embora lá no fundo, o nó no estômago me lembrasse, de vez em quando, que tinha pela frente 100Kms de pura montanha, num Trail classificado como  "Difícil"  e que concede 3 pontos aos finishers e candidatos ao Mont Blanc!!

Nos últimos dias as condições atmosféricas alteraram-se. As temperaturas baixaram significativamente e a chuva regressou.

Aqui foi um ponto a meu favor: temperaturas baixas e chuva!

  • Às 10:30 dirigi-me ao 'cadafalso'.
  • Às 10:40 fiz o check-in.
  • Às 10:45 estava no estádio, onde tudo iria começar e com muita esperança minha, acabar!
Muitas caras conhecidas. O Francisco Monte que ia fazer a estreia (e que estreia seria ...) nos 100Kms rumo ao Mont Blanc. O Joaquim Adelino, o Luís 'Tigre' Miguel, o Jorge Serrazina, o António Almeida, o Carlos Couto e muitos outros.
Sente-se ali um ambiente diferente da generalidade das provas a que estou habituado.

Não há grandes manifestações, há um clima de alguma tensão. Todos os segundos são aproveitados para ver e rever todos os aspectos no equipamento.

Troquei algumas palavras com o Francisco, desejei-lhe uma boa prova e alguns minutos depois era a partida.

E de súbito cerca de 300 almas são largadas no escuro, para os trilhos que nos separam de estar de volta a este mesmo estádio donde saíamos agora, em passo curto.

Como meio de me auxiliar a controlar o meu esforço e sempre com a Arrábida no pensamento, procurei o Joaquim Adelino.

Ele era repetente, conhecia por isso o traçado e o passo dele, como já pude comprovar em diversas ocasiões que andei ao seu lado, assemelha-se muito ao que eu precisava naquele início de prova.

Alguns Kms à frente encontrei-o. Ia acompanhado pelo Luís Miguel e juntei-me a eles. O que planeei seria fazer com eles a 1ª metade da prova, ver como me sentia nessa altura e depois decidir qual a táctica mais aconselhável nessa altura.

As minhas 'balizas' eram:
  • Pac3 em 07:00hrs
  • Pac6 em 14:30hrs
  • Pac9 em 21:45hrs
Se eu desistisse por falta de pernas, assumia tal limitação e voltava costas. Agora era impensável para mim ser afastado da prova por atingir algum destes PAC fora dos horários definidos.


Há o 1º curso de água e a 1ª cena digna de registo.
Um grupo de 4 espanhóis, todos equipados a rigor e com os bastões da moda. Mas os rapazes estavam com pouca vontade de molhar os pés e a certa altura, sobre as pedras no riacho, a fazer equilibrismo e atrás dos tais espanhóis, vejo as pontas de 2 bastões à frente dos olhos e assusto-me. O sujeito em vez de usar aquilo para se apoiar, estava a usar aquilo para me espetar!!
Desviei-me, atirei-me para a água e adeus espanhóis!!

Os trajectos entre PAC nesta altura são feitos quase em silêncio. Tudo está ainda muito no início. Ainda há muitos Kms pela frente e a noite propicía a algum recolhimento.

Escrevi na altura no tlm.: "1ª hora com 7Kms"
Tinha sido um trajecto acessível, tirando talvez o facto da longa fila que gerou aquele curso de água, com muita gente a querer esquivar-se à água.



No PAC1 - Viveiro (11Kms) ainda vou com o Joaquim e com o Luís. Foram 11Kms para aquecer sem nunca ferver!!

Alguns pedaços de banana e ala, para não arrefecer.

Passados 7Kms, no PAC2 - Alegrete, deliciei-me com tostas acompanhadas com marmelada, naquele coreto de difícil acesso.

Pac2 = 02:27hrs

Neste ponto do traçado mais uma cena digna de registo. Vamos ainda os 4, agora sei que o 4º elemento e que eu não conhecia era a Susana Brás. Aqui ajudo o Joaquim a vestir o corta-vento. Com mais a ajuda do Luís, andamos ali os três à procura  do capucho daquilo. Com 'apenas' 17Kms, já não dávamos com aquilo!!

Está frio e começa aqui o ataque às antenas e ao PAC3.

Escrevi na altura no tlm.: "3ª hora com 19,5Kms. Mais vento e frio. Venho com o Luís e o Joaquim aí atrás"

Adianto-me um pouco, embora nunca nos afastemos muito uns dos outros.

Ando aqui alguns Kms com o Tomé, do Mundo da Corrida. Faz-se silêncio naquela caravana. Tudo no escuro, tudo a passo e concentrado na tarefa que temos pela frente.

Mais umas notas no tlm.: "Vou agora sózinho. Elevação em 950mts. Está muito frio. Mãos e nariz gelados. 4hrs e 26Kms"

Pac3 = 04:54hrs

Adiantei-me um pouco e chego ás Antenas sózinho. PAC3 - Antenas. Está muito frio e muito vento. Uma bancada e um toldo, no meio do nada constitui o PAC3. Alguns elementos embrulhados em cobertores. Faço o controlo, peço um café, agarro em 2 queques e vou para dentro dum contentor, que felizmente alguém abandonou ali. Vários concorrentes vão desistir aqui. Hipotermia! Estarão a sentir o mesmo que eu senti há umas semanas atrás, em Sesimbra.

Escrevi na altura: "5hrs e 30Kms. Nas antenas os 1ºs abandonos. Estou gelado mas sinto-me bem. Sigo agora o Antº Almª. O ambiente aqui em cima é de fugir ..."

Vejo entretanto o António Almeida a arrancar e arranco com ele. Sei que em 2012 ele e o Joaquim andaram grande parte do percurso juntos, é por isso outro candidato para ser 'agarrado'. Sei por outro lado que o Joaquim tem a companhia do Luís, por isso vou à procura da minha.

"Apreciem agora estes 900mts de single track"  está escrito num placard no início duma descida, logo ali à saída do PAC3. Devo confessar que não apreciei nem 1mt daquele single track!!

O nevoeiro dissipava a luz do meu frontal, o frio fazia os meus olhos lacrimejarem e por isso foram 900mts sempre na expectativa duma queda, porque mal conseguia ver o caminho.

Felizmente, um pouco mais à frente começa a nascer o dia. Acompanhado pelo António encontramos o casal de 'lebres' Mota, com quem andaremos durante uns Kms.





Percorremos agora numa zona muito bonita e o nascer do sol é espectacular. É a Barragem da Apartadura, a nossa próxima paragem e final de viagem para mais uns quantos, que desistem ali.

Pac4 = 06:53hrs

Como pão com marmelada e coca-cola. Alguns minutos de intervalo e seguimos caminho, rumo ao PAC5.

sábado, 25 de maio de 2013

I - Agora sim, sou um Trailer!

Na quinta-feira, passado dia 16 de Maio, estava prestes a embarcar naquela que certamente representou a minha maior aventura em termos desportivos: a realização dum Trail com cerca de 100Kms.

A ideia de o fazer vinha já do ano passado, após Runa e os 100Kms que fiz.

Os relatos sobre a edição de 2012 e a qualidade outorgada à Organização, ajudaram à decisão que seria em Portalegre o local para a minha estreia (ou tentativa) de chegar aos 3 dígitos em Trail.

No nascer do ano novo, ataquei e fiz de imediato a minha inscrição.

De lá para cá muita coisa aconteceu, mas a ideia tomou forma gradualmente, começou a andar comigo, gradualmente à medida que o calendário avançava.

Um ultra treino em Sintra, a edição 'pirata' do Fim da Europa, Runa e Arrábida, foram os eventos de 2013, até chegar a São Mamede.

Dias atrás comprei um frontal Black Diamond que substituirá o do chinês que comprei há uns anos para a Pirata de Monsanto. Comprei a Manta de Sobrevivência, que com o apito que recebi em São João das Lampas completou o cabaz dos artigos obrigatórios definidos pela Organização.

Os treinos, esses foram fracos. De facto a preguiça não me dá apenas para a escrita, apanhou-me também outras funções. Treinos dispersos e na sua maioria desadequados para uma actividade daquelas.

Fiz o treino em Sintra, onde contei de início com a preciosa companhia do Francisco Monte e depois, mais à frente, com a do experiente Carlos Fonseca.

Deste recordaria, durante todo o tempo que decorreu até Portalegre, que tudo se resumia a Gestão de Esforço, quando o assunto eram eventos longos, tal como eu pretendia fazer em Portalegre.

A esta distância, acabo por lhe dar inteira razão.

Fiz Runa, claro, num passo sempre confortável porque ali pouco interessa se corro ou não, mas na Arrábida, em Abril, levei com um Reprovado, a encarnado carregado. Não passei dos 30Kms.
Razão: falta de pernas!!

Depois foi cerca de um mês a tentar à pressa arranjá-las. As pernas!!

Voltando à quinta-feira, dia 16, com que comecei este relato, confidencio-vos que passei o dia a imaginar que no dia seguinte estaria todo o dia a correr, em Portalegre e arredores.

Levantei-me e a essa hora estaria no dia seguinte a correr, há 7 horas!
Almoçei e a essa hora, no dia seguinte estaria a correr, há 13 horas!
Saí do serviço e apanhei o comboio para casa e imaginei que no dia seguinte, a essa hora estaria a correr há 18 horas!

Com o equipamento todo dividido e pronto eram 20:00hrs quando arranquei em direcção a Portalegre.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A (des)ordem das coisas.

Pensei um pouco agora que tenho 3 artigos para partilhar convosco.

Tenho andado preguiçoso, essa é a verdade.

Escrevi parte do relato da minha jornada de 2013 a Runa e ficou por ali.

Agora que venho de Portalegre, pensei se seria mais correcto manter alguma ordem cronológica, por força da qual o relato que deveria ser agora publicado seria aquele que descreve a minha ida a Runa, representando este evento o que para mim tem mais importância no ano.

Seguindo nessa ordem seguir-se-ia o relato da minha ida a São João das Lampas, fazer a estreia dos Trilhos do Fernando Andrade e finalmente a minha aventura e igualmente estreia no Ultra-Trail em São Mamede.

Se todos os relatos são importantes para mim, porque tenho gosto em partilhar convosco as minhas aventuras, tb não é menos verdade que quanto mais atrasar a publicação destes artigos no meu blog, mas desactualizados eles ficam e temo perder seguidores (...).

Acabei por me decidir em baralhar as coisas e publicar o evento que tenho mais fresco na memória e depois publicar os outros dois.

Runa porque o devo ao que partilharam esta minha jornada, à minha Família e ao grande Jorge Branco e o dos Trilhos apenas porque quero.

Obrigado a vocês por continuarem a dar-me o prazer das vossas visitas.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Cogitando sobre a minha maratona

A propósito dum comentário à minha mensagem sobre a Maratona de Lisboa do último domingo, que o Jorge Branco aqui deixou, dei comigo a pensar se de facto não estarei a 'esticar a corda' e a voltar aos tempos em que corria para tempos.

Recomecei a correr em 2010 e ao mesmo tempo descobri o Trail. Estreei-me no Trail de Vale de Barris, das Lebres do Sado e o meu conceito de corrida alterou-se radicalmente.

A partir daí passei a procurar locais com pisos moles para os meus treinos, passei a evitar dentro do possível e do razoável o alcatrão e a minha época passou a ser na sua maior parte feita em Eventos de Trail. Passei a procurar Eventos que não fossem estritamente 'Corridas', que tivessem algo diferente das 'Corridas' que até ali fazia.

O meu objectivo ao participar nesses Eventos passou a ser mais lúdico e menos competitivo. Claro que a minha 'escola' das corridas a pé dos anos 80 e o meu feitio fazem com que, mesmo irreflectidamente, haja sempre e em todo o lugar qualquer espécie de competição, disputa, mas esse é um espírito de há longa data e como tudo, alterá-lo requer prática e muito treino ...

Na minha última maratona, revivi os tempos em que corria apenas atrás de recordes, atrás de 'PB'.

Agora, apesar de nada ter planeado nesse sentido, o que é certo é que naquela manhã deu-me para ali e fui fazer uma 'corrida' à antiga!

Com o comentário do Jorge voltei, reflecti um pouco e não foi preciso muito para concluir que não vou alterar nada em relação ao passado recente. Vou continuar a procurar obter prazer na corrida e não recordes pessoais. Vou continuar a procurar o meu bem estar em vez de arriscar uma lesão que com os meus 52 anos tornar-se-ia provavelmente numa lesão crónica de médio/longo prazo.

Vou por isso continuar o meu treino para correr com os outros e não contra os outros.

Vou procurar observar e gozar o que me rodeia enquanto corro e não apenas o alcatrão à minha frente.

 Vou procurar Eventos onde me sinta mais do que um simples número para a estatística.

Faço cerca de 12 provas ou Eventos por época e quero que a maioria seja  just for the fun !!

Não quero que os 'eventos' se transformem em rotina. Gosto de diferenciar treinos de 'eventos'. Era incapaz de fazer, como alguns fazem, provas todos os fins de semana. Gosto de sentir a adrenalina nas manhãs de 'Evento'. Gosta da expectativa das vésperas. Com 50 provas por ano, tudo ia ser apenas mais um treino.

Provas como a Maratona serão uma excepção.

Eventos como Melides, Arrábida, Almonda, UTAN, serão a regra.

É nesses eventos que me sinto bem. Eventos onde há tempo para tudo, inclusive o simples acto de beber 1 copo de água com calma, sem estar com medo de perder o pelotão!

Claro que é natural que haja competição na minha actividade. Mas quero que essa competição seja mais comigo mesmo e não pelos recordes, ou tempos.

Claro que enquanto me der gozo, continuarei a fazer 1 maratona a 'abrir', mas será uma excepção na minha época, como aliás tem acontecido nos últimos 3 anos.

Obrigado Jorge por me teres feito parar um pouco e pensar, para assentar ideias.

E agora venha a próxima.

Para já vou para a cama porque amanhã tenho um rico treino em Monsanto, bem cedo, com o restante grupo dos 'Desalinhados'.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A minha Maratona, peça a peça!!

O António informou: 03:28:38. (tempo do chip) É por isso o meu tempo oficial.

Média: 04:58 / Km

E agora a pedido ...

Km 0 - Frio. Muito frio. Francisco Monte à partida. É para marcar em cima. Molhada. É furar lá para a frente, sempre à vista do Francisco que parece querer fugir ...

Km 1 - Apanho o balão das 3:30. Grande concentração. Mas lá para a frente logo dispersa!!

Km 2 - Descida para o Areeiro. Assim até parece fácil.

Km 3 - Av. de Roma. Está ali o Eduardo Santos (??). Está perdido concerteza!!

Km 4 - Vislumbro o Jorge Branco a gritar feito doido: "Olhó comboio das 3:30!!" Afinal é ele o homem que corria praticamente nos comboios!!

Km 5 - O frio já era ...


5:51 / 4:32 / 4:44 / 4:57 / 4:52


Km ? - Alvalade. Quando aqui passo dá-me sempre aquela vontade (...). E tem de ser, ali numa árvore.

...

Km 10 - Carnide. Algum cansaço. Ups, que é isto?? Cansado?? Abastecimento. Páro e bebo uns golos de água. Confusão com a malta das estafetas. 'Meninos' que correm uma maratona às prestações!! Homem que é Homem é a Maratona SÓ pra passar o tempo ao domingo de manhã ...


 4:48 / 4:49 / 4:49 / 5:09 / 4:38



Km ? - Colombo. Está tudo bem. A bandeirola cativa a atenção dos pedestres. O grupo é assim facilmente identificado como "O das 3:30". Sinto algum orgulho. Confesso-me!!

Km ? - Sete-Rios. Agora é um bocado a subir até ao CI.

Km 15 - José Malhoa. Abastecimento. À passagem pelos hotéis é só estrangeiros. E à passagem pela mesquita ouço algumas preces atrás de mim. Mais água e depois mais um forcing para recuperar o atraso. Até aqui já foram, acho que 3 paragens. Estes sprints desgastam. Mas se me engasgo ainda é pior.


4:45 / 4:46 / 4:49 / 4:54 / 4:55


Km ? - A.A.Aguiar. Uau!! Agora é pra descansar até lá abaixo!!

Km ? - Marquês de Pombal. Parece que sou eu que sou o estrangeiro aqui, no meio da fiesta espanhola! A vista de Lisboa daqui é espectacular!

Km ? - Rossio. Queixo-me do piso.

Km 19 - Pç. do Comércio. E finalmente alguma festa Portuguesa. Uns tambores e algum barulho. Os portugueses também não têm razão nenhuma para festas!!

Km 20 - A ligação ao Cais do Sodré, ainda em obras, reduz o espaço de circulação. Muita gente e dificuldade em correr. Mais uma água e o 'passeio' está a acabar-se.

5:08 / 4:52 / 4:44 / 4:50 / 4:55

Km 21 - D. Carlos I e é a Meia Maratona com 01:42:51! A margem de 2' é curta para o que ainda aí vem. Grande confusão com o pessoal das estafetas todos a afunilar a passagem.

Km ? - Alcântara e uma queda de dois. O magote à volta da bandeirola é tal que tropeçamos uns nos outros. É irracional a fixação que temos por aquele desgraçado que aceitou tamanho fardo. A marcação é literalmente em cima!! Depois acontecem destas. Se aquilo fosse comigo tenho a impressão que ficava ali, estendidinho!!

Km ? - Finalmente o retorno. Leva a habitual palmada. 'Só' faltam 12Kms. Vejo o António Almeida.

Km ? - Gerónimos. Afasto-me do balão para uma distância de segurança. Tudo começa a provocar-me atrito. O desgaste aumenta.

Km 25 - Mais um abastecimento. Há pessoal a atravessar-se à frente do grupo para ir beber água! Ouvem-se gritos!

5:00 / 4:57 / 5:00 / 4:57 / 4:57

Km ? - Av. 24 de Julho ao Domingo. Um passeio para alguns. Às vezes são 3 e 4 lado a lado, em amena cavaqueira. Vamos sem grande margem que fará falta depois para o Areeiro. O fuel diesel está a acabar-se!

Km 35 - Cais do Sodré. Acho que aqui tive direito a 1/2 banana!! Um dos mimos da organização!! Não foram muitos!!

4:57 / 4:55 / 5:01 / 4:57 / 5:02

Km 36 - Pç. do Comércio. E perco o balão! É o muro, enorme que se ergue à minha frente!!

Km ? - Martim Moniz. Subo o muro. Olhos no chão (Francisco). Olhos no chão. Mas não sou só eu. Aquilo parece uma via sacra de penitentes por ali acima, em direcção ao Areeeiro!

Km 39 - Pç. do Império. Apanho o Eduardo Santos que afinal não ia perdido. Pergunta-me pelo tempo. Respondo 03:15. Vou-me embora. Ele diz que vai com fome ... Faço contas e sinto que ainda tenho alguma hipótese. Faltam 3Kms e tenho 15' para os fazer.

Km 40 - Pç. do Areeiro. Adoro-a!! Recuso água. Acho que não conseguia beber agora!! Arranco feito desalmado!! Eu bem queria aumentar o ritmo mas acho que o corpo me ignora simplesmente!!

5:00 / 4:59 / 5:18 / 5:20 / 5:25

Km 41 - Av. de Roma. Um sujeito de bicicleta despeja spray nas pernas doutro que aparenta correr (...). Aquilo vai para os meus olhos tal a quantidade vaporizada!! Fujo dali. Continuam os pares e eu aos ziguezagues! O meu mau feitio está no seu auge e pareço rugir!! Av. E.U.A. Adoro-a ainda mais que à Pç. do Areeiro. A descer tudo ajuda mesmo.

Km 42 - Av. Rio de Janeiro. Mas aonde é que está a porta?? De manhã estava aqui mais perto!! Olho para o 'Silver' e ainda marca 3:29!! À m/frente vão dois espanhóis. Sinto-me como o Nuno Álvares. Estes têm de ser meus!!

Entro no Estádio e na recta da meta. Assim que consigo ver o pórtico descanso finalmente!

Consegui!!

4:54 / 4:49

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Maratona de Lisboa

A época 2012/2013 está no início.

Começou este ano com uma estreia no Monge, em excelente companhia do meu filho + velho Guilherme e dos meus amigos destas andanças Jorge Branco e Víctor Silva, que rapida e naturalmente foram adoptados como Padrinhos de 'baptismo' do rapaz!

Seguiu-se-lhe a inevitável Meia da Nazaré e agora esta, a Maratona de Lisboa, que termina o ano chamado de 'civil'.

Depois das férias de verão, propositadamente de descompressão também em termos de corrida, para poupar o esqueleto, simplesmente não me apeteceu começar em força com os treinos. Normalmente, os treinos recomeçam na 2ª quinzena de Setembro e esta ano pura e simplesmente não me deu para ali!!

Passou-se Setembro, passou-se Outubro e passou-se Novembro. Cá o rapaz a fazer 3 corridinhas semanais, de manutenção, sempre descontraidamente, nada de específico, mas a manter uma certa rotina corporal.

Na Nazaré o teste foi superado, com distinção. No final e após um aquecimento de 17Kms o tempo final abaixo da 01:45'.

Mas a Maratona está longe de ser 'apenas' duas Meias Maratonas.

Como já me conheço há uns anitos, à partida confessei-me  "...nem vale a pena planeares uma Maratona calma, porque já sabes..."

Os 5'/Km andavam a zunir ao ouvido há muito tempo. Experimentei na Nazaré e a coisa até se aguentou. Por isso olha ... não há-de ser nada e vai ser para sofrer ...

Às 08:55, na recta junto ao 1º de Maio, confessava-me ao Francisco Monte: hoje vai ser para doer. Para a 1ª parte sei que dá, até porque a 'coisa' é sempre a descer, depois será o que o corpo deixar!!

Assim que a partida é dada procuro o balão das 03:30!! Era este o desafio naquela manhã fria. 03:30!!

Parto sempre muito atrás. Facilita em termos de aquecimento, de ambiente, em termos de cheiros, em termos de cotoveladas e pisadelas mas dificulta noutras coisas, entre as quais o tempo que se perde até se conseguir correr qq coisa.

Outra coisa que é habitual em mim é gostar de começar calmamente e depois ir aquecendo, devagar, davagarinho e só após os 5 ou mesmo 10Kms começar num passo mais certo.

Mas para cumprir o meu objectivo havia que arregaçar logo de início e para agarrar o 'bandeirola' tive de dar ás canetas naquele 1º Km.

Assim que o agarrei colei-me que nem lapa. Eu e mais alguns 50 taradinhos, que rodearam o rapaz qual bóia de salvação no meio dum mar agitado e inóspito!!

Mas no início das provas longas eu vou cheio de água e nesta 1ª Meia fui obrigado a ir à latrina 2 vezes. Se juntarmos a estas duas paragens mais 4 nos abastecimentos, em que parei em todos para beber alguns goles de água, aqui está a explicação para alguma inconsistência no ritmo que consegui na 1ª parte da prova. Se me atraso mesmo que sejam 'apenas' 200mts, é um esforço suplementar que tenho de fazer para os recuperar e tenho a certeza que isto é pura e simplesmente falta de treino. Porque tudo se treina, até o básico de beber água e correr em simultâneo.

De resto foi como planeara antes da prova. A 1ª parte é realmente fácil. Tirando algumas subiditas, aquilo é um passeio. Mas o passeio se é em demasia paga-se caro, logo a partir do Cais do Sodré.

Embora em esforço, a partir dali aumentei a concentração no Km a Km. Lembrei-me da táctica do Francisco "... é olhar para o chão e continuar ..." . Procurei evitar tudo o que me causasse 'atrito' fosse de que género fosse. A partir dos 30Kms há muita coisa que causa atrito!!

A concentração de malta à volta do 'pacemaker' começou a enervar-me, com pessoal que não dá um milímetro entre eles e o sujeito da bandeirola. Já depois do retorno, afastei-me propositadamente daquele magote. Outra coisa que me enervou foi o pessoal mais atrasado da Meia Maratona. Eu sei que ele têm o mesmo direito que eu a andar ali. O facto de eu estar a correr a um ritmo exigente (pelo menos para mim ...) e eles irem em 'passeio', não me dá o direito de exigir ou esperar que eles se desviem por simpatia. Mas porque é que têm de fazer a Meia Maratona a andar e ainda por cima em paralelo, alegremente na conversa e a ocupar por vezes quase toda a largura da via disponível para correr??

É o eterno confronto de interesses, entre aqueles que têm expectativas de um qualquer obstáculo a ultrapassar e os outros, aqueles que consideram aquilo como uma simples manhã de convívio entre amigos!! Sinceramente por vezes inclino-me a que sejam eles que têm razão ...

Depois foram os abastecimentos, em que há pessoal que se atravessa positivamente à frente de toda a gente para agarrar a 1ª garrafa que é oferecida, na 1ª mesa de várias com abastecimentos. O pessoal da organização bem gritava "há mais garrafas à frente" mas para quê, era aquela, a que o pessoal queria a toda a força agarrar e depois era tudo a desviar de todos para evitar quedas!!

Enfim, já com muito desgaste (em vários aspectos) cheguei à Pç. do Comércio e pura e simplesmente a cabeça quebrou. Assim que começamos a subir a Rua da Prata fico-me para trás e lentamente vejo a bandeirola a afastar-se. É o 'Muro'!!

É o pior período. Martim Moniz, Almirante Reis. Em dia de Maratona odeio aquelas zonas de Lisboa!!

A bandeirola vai a cerca de 200/300 mts à minha frente e eu lá vou em direcção ao enorme prédio cor de rosa lá em cima, no Areeiro. Na Pç. do Império vejo á minha frente o Eduardo Santos. Cumprimento-o e ele pergunta-me com que tempo vamos. Respondo-lhe 03:13hrs e sigo caminho!

Poucos metros à frente passo a marca dos 39Kms, faço contas e de súbito a vida volta ao meu corpo!!

Espera lá!! Se vou com 03:15 aos 39Kms, tenho mais 3 Kms para fazer a 5'/Km!! É ainda possível!!

E todo torto lá experimento qualquer coisa que eu queria que se parecesse com um aumentar de ritmo, mas que devia parecer tudo menos isso a alguém que por incrível que fosse observasse por acaso o meu movimento. Em direcção à Av. de Roma acelero o que posso. Lá apanho novamente pessoal lado a lado alegremente em domingo de passeio e eu ali, com os bofes de fora a ter que ziguezaguear por entre eles.

Os espanhóis cheios de vida e garra puxam pelos seus. Os nossos, os portugueses não tiram as mãos dos bolsos, para não arrefecerem!!

Chego à Av. dos EUA e agora são 300mts a descer e lá vou eu, perto da síncope!!

Viro para a Av. Rio de Janeiro e o Estádio parece estar mais afastado do que há poucas horas atrás.

Entro no Estádio e começo a olhar de imediato para o pórtico, com o cronómetro que só consigo ver quando entro na recta da meta.

A marca das 03:29:5x está a virar e aí acredito, vou conseguir!!

E consegui. 03:30:08!! Se a Maratona fossem 'apenas' 42Kms tinha baixado as 03:30hrs. Com as esquisitices fizeram-na com mais uns metros e só por isso passei uns segundos daquela marca.

Fiz qualquer coisa muito parecida a isto em 1990, na minha 2ª Maratona, uma que terminou na Praça do Município, tinha eu os meus 30 anos.

Fiquei contentíssimo e prometi a mim mesmo que agora é que eu me vou esforçar, agora daqui prá frente, para entrar em beleza em 2013.

Seguem-se projectos importantes, aliciantes e desafiantes. Para já são apenas projectos, só em Janeiro decidirei.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A Meia da Nazaré (Parte II)

Neste meu, até ver, último regresso às corridas, a ida à Nazaré evoluiu do aspecto puramente competitivo com que a encarei nas décadas de 80 e 90, para algo mais a ver com o prazer de usufruir daqueles ares e ambientes muito particulares nas manhãs de Novembro.
A Nazaré passou a não ser 'apenas' para fazer a Meia Maratona e passou também a ser uma desculpa para fazer um treino especial, longo ou específico, para a Maratona de Lisboa, que geralmente se realiza passadas 3 semanas.
A ideia passou a ser fazer alguns Kms suplementares, antes da Meia e depois fazer a prova, sempre em ritmo de treino.
Em 2010 foi um simples ir e vir no trajecto da Meia, a que se seguiu a prova em 02:00hrs.
Em 2011 variei o trajecto, para a via paralela à estrada que constitui o eixo principal da prova, junto aos campos, a que se seguiu a prova, novamente para 02:00hrs mas com 1 série de 1Km a cada 5 de prova, num ritmo perto dos 04':30"/Km.
Em 2012 melhorei o percurso do 'aquecimento', fazendo um circuito circular desde a Nazaré até Valado dos Frades e retorno à Nazaré.
Passei de 12Kms em 2010, para 14Kms em 2011 e finalmente para cerca de 17Kms nesta última versão, que agradou e que será em princípio a versão para ficar como 'A sessão de aquecimento' na Nazaré.
Este ano apanhei chuva durante todo este período do treino, que só parou na parte final, já à saída do Valado.
Fui o mais confortável que consegui, sempre acima dos 6'/Km e sempre a controlar os BPM. Cheguei ao carro a 15' do início da prova, tempo que foi suficiente para mudar de roupa e fazer um pequeno abastecimento.
Às 10:55 já estava na recta da meta à espera, lá no final de um pelotão que embora sem a extensão doutros que o tempo já ali presenciou, era ainda assim um belo pelotão.
Vi entretanto que estava atrás de toda a gente, junto ao pessoal da Prova de Marcha e tentei furar alguns grupos, sem grande sucesso. De modo que às 11hrs, quando a partida foi dada, ainda tive que ziguezaguear entre toda aquela gente que participando num 'Passeio' não deixam por isso de se preocuparem na posição em que partem e fazem menção de se chegar sempre mais à frente possível.
Acho que foi no 1º Km que decidi que nesta 38ª edição não iria, como nas precedentes, fazer a 2ª parte em ritmo de treino longo. Decidi ali mesmo naquele minuto, que iria testar a minha condição e o quanto conseguiria aguentar a fazer um ritmo mais elevado.
O objectivo passou então a ser o de ver até quando conseguiria aguentar um ritmo de 5'/Km. Iria por isso lutar por fazer qualquer coisa parecida com o que fiz em Maio, na Meia da Caparica.
Para aquela prova prepara-me especificamente. Para esta não fiz absolutamente nenhum treino desse género.
A outra meia foi na areia e esta seria no alcatrão, por isso as coisas estavam mais ou menos equilibradas, se nos abstraírmos dos 17Kms de 'aquecimento' que fiz nesta!!
Km a Km lá fui lutando. No retorno tive mais um adversário, o vento que desgastou.
Mas é assim a Nazaré, algo metafísico. Algo que foge à razão.
Por mais que eu tenha a alegria de retornar à Nazaré, sempre irei obter algo inesperado daquela prova.
É escusado fazer planos. Basta pôr-me a caminho e deixar o resto acontecer.
No passado 11 de Novembro aconteceu novamente Nazaré.
Até 2013 Nazaré!